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Entrevista com intercambistas da Escola de Engenharia

O Ciência sem Fronteiras foi um programa que buscou promover a consolidação, expansão e internacionalização da ciência e tecnologia, da inovação e da competitividade brasileira por meio do intercâmbio e da mobilidade internacional.

Em 2017 retornaram à UFF os alunos que realizaram este intercâmbio no último ano. O Núcleo de Mídia da Escola de Engenharia realizou uma entrevista com dois deles, de Engenharia Mecânica. Rafael dos Santos Braz da Cruz viajou à University of Manitoba, no Canadá; enquanto João Paulo Cunha De Matos viajou à University of Nevada, em Las Vegas, nos Estados Unidos. Confira:

Para qual universidade você foi? Como foi a adaptação a um clima tão diferente do Brasil? Por quanto tempo você ficou fora?

Rafael dos Santos Braz da Cruz (RC): Eu fiquei na University of Manitoba (na cidade de Winnipeg – MB no Canadá). Estudei lá por 1 ano e 4 meses. A adaptação ao clima foi um pouco complicada. Foi amenizada porque cheguei lá no final do verão (com média de 25º C) e pude experimentar a chegada gradativa do inverno. Mas experimentar um inverno com temperaturas próximas de 40º C negativos foi muito complicado. É uma realidade climática completamente diferente do Brasil. E como a cidade vive debaixo de neve durante praticamente 5 meses no ano, mesmo em caso de nevascas a vida continua: com aulas e trabalho normais, ao contrário de outros locais. Mas apesar de tudo foi uma experiência muito enriquecedora, e eu aprendi a não reclamar tanto do nosso verão.

João Paulo Cunha De Matos (JP): Fiquei na UNLV – Universidade de Nevada, Las Vegas durante 1 ano. A adaptação foi tranquila, mas a vida universitária é muito diferente da nossa realidade aqui no Brasil. O tempo que você passa dentro da sala de aula é bem menor, dando mais tempo para viver outras coisas legais da vida universitária [e] tirando essa pressão de sempre estar estudando para provas, por exemplo.

Como foi a experiência do intercâmbio?

RC: A experiência foi sensacional. Ter contato com inúmeras outras culturas, visto que há muitos imigrantes no Canadá, poder viver num país muito bem estruturado que, apesar de abrigar muitos imigrantes de culturas distintas, conta com um respeito mútuo enorme foi uma experiência extremamente enriquecedora. Viver longe da família, namorada e amigos também me trouxe uma maturidade muito grande em diversos aspectos, além de me ensinar a valorizar ainda mais cada momento com essas pessoas tão especiais para mim. A gente volta com outra visão de mundo e também de Brasil. Foi como se eu tivesse amadurecido uns 10 anos, apenas nesse período de 1 ano e 4 meses. São dificuldades e aprendizados diários que tivemos que enfrentar sem a comodidade de estar próximo de casa, ter que solucionar problemas em outra língua, se adaptar a uma cultura bem diferente da nossa… não são coisas tão fáceis.

JP: A minha opinião e a da maioria das pessoas que eu conheci que também estavam no programa são bem parecida. Foi um ano atípico e nunca mais vamos ter algo igual. Poder experimentar um intercâmbio cultural imenso e ainda vivenciar a vida universitária bem diferente da que estamos acostumados aqui foi uma experiência bastante positiva e única.

Como funciona o programa que vocês participaram por lá?

RC: O programa que eu participei contemplava 1 ano e 4 meses, como já mencionado. Nos primeiros 4 meses (setembro até dezembro de 2015) nós fizemos um curso de inglês na própria universidade. Após terminá-lo, nós cursamos um período de graduação (janeiro até abril de 2016). Nas férias de verão de lá (maio até agosto de 2016) era o período reservado para realizarmos pesquisa ou estágio (eu realizei pesquisa na universidade). E nos últimos 4 meses (setembro até dezembro de 2016) nós cursamos mais um período da graduação.

JP: Participei do Ciência sem Fronteiras. Então eram dois semestres estudando tendo aulas normais, e durante o verão (aproximadamente 3 meses) a gente tinha que estar em alguma atividade relacionada a nossa área, seja estágio ou pesquisa.

No que a experiência da mobilidade internacional acrescentou na sua formação por aqui?

RC: Durante a minha experiência lá eu busquei estudar alguns tópicos que são diferentes do foco da engenharia mecânica da UFF, justamente para tentar complementar a minha formação e obter conhecimentos que de alguma maneira possam otimizar os conhecimentos obtidos na UFF. Durante o meu período de pesquisa eu pude trabalhar em um laboratório de realidade virtual, onde a minha pesquisa foi focada em modelagem para tecnologia de impressão tridimensional.

Pude aprender diferentes formas de modelagem, através de diversos softwares, além de aprender a manusear equipamentos como scanner 3D e impressora 3D. Essa experiência foi incrível, visto que essa área vem se desenvolvendo muito em diversos campos. Hoje em dia ela é muito forte na área biomédica, mas também tem ganhado bastante espaço na área de engenharia. Infelizmente não temos esse campo de impressão 3D forte no Brasil ainda. Mas, acredito que em questão de alguns anos essa tecnologia será amplamente implementada, principalmente nas universidades, que são o berço do conhecimento e que poderão colaborar para a aplicação nas indústrias. E vendo essa tecnologia como realidade comum em um futuro breve, eu tive muito prazer em poder adquirir uma bagagem boa nesta área.

JP: Além de toda bagagem cultural que adquiri durante esse tempo morando em um lugar com uma cultura diferente, essa experiência me acrescentou bastante em relação aos conteúdos de minha área de interesse. No meu caso, a robótica, é algo que, aqui na UFF, não se tem muito em nossa grade curricular. Tampouco laboratórios bem equipados para desenvolver tecnologia nessa área. Tive a oportunidade de estar aproximadamente 9 meses em um laboratório de robótica e pude aprender muito.

Quais são as principais diferenças entre a universidade visitada e a UFF?

RC: Em questão de qualidade de ensino dos professores não senti tanta diferença, e pude constatar que temos excelentes professores na UFF que não ficam atrás de professores de outros países. Porém a estrutura disponível em ambas as universidades é diferente, e isso acaba influenciando na qualidade do ensino como um todo, pois tem-se muito mais ferramentas disponíveis para enriquecer os estudos. Outra diferença que pude observar é a interação das pessoas. Na UFF, como um reflexo da sociedade brasileira, nós temos um espírito colaborativo muito maior, onde as pessoas se preocupam e se esforçam para ajudar as outras, apesar das dificuldades cotidianas na universidade.

JP: São duas realidades paradoxais. Fica até difícil descrever diferenças sem soar como uma crítica à atual situação das instituições de ensino federal no Brasil. Fiquei em uma universidade privada, em um país que tem maior condição e investimento em educação, então a diferença na infraestrutura da faculdade pode se resumir à “tudo” – mais investimento em pesquisa entre os alunos, laboratórios de ponta e tudo sempre a disposição de quem quisesse entrar no laboratório e usar os equipamentos, resumindo: o cenário ideal para quem quer estudar e desenvolver conhecimento. Modelo de ensino totalmente diferente, poucas horas dentro de sala de aula tendo a aula “formal” e mais atividades extracurriculares. A única coisa que a UFF não sai perdendo é na qualidade do ensino. Até os professores reconhecem que o Brasil tem alunos de ponta. A cobrança em relação ao conteúdo dos cursos no Brasil é bem mais pesada que no Estados Unidos, então para quem já tem uma vida levando os estudos a sério no Brasil vai sentir uma diferença bem grande quanto ao nível de cobrança nos cursos (provas, trabalhos, notas finais, etc.)

Alguma dica para quem deseja fazer intercâmbio para a mesma universidade que vocês?

RC: A dica que eu daria é correr atrás dos professores para conhecer as áreas de pesquisa deles e consequentemente conhecer a estrutura da universidade que pode somar muito para o desenvolvimento dos alunos. A universidade é um ambiente riquíssimo que, sendo bem explorado, pode gerar um desenvolvimento pessoal e profissional imenso.

JP: Para quem vai para a UNLV, não deixe a vista dos cassinos te distrair! É muito fácil você deixar os estudos de segundo plano e ir curtir! Las Vegas é a cidade que nunca dorme e a UNLV fica pertinho da rua principal.